sexta-feira, 13 de agosto de 2010

Pós-vida

Julieta não gostava de ser contrariada, não gostava de gente fraca, não queria largar o osso de jeito nenhum. Ela queria viver, queria passar os dias olhando pela janela, dando pequenas passeadas pela rua, ou só inventando músicas com os nomes dos bisnetos. Nem televisão ela queria, acho que porque aos 96, ela gostava mais do mundo interno, se dava muito bem com ele.
Eu chegava no quartinho dela e sentia um perfume que conheci por 25 anos. Era recepcionada como "Meu coraçãozinho de ouro cravejado de brilhantes".
Minha mãe conta que quando muito pequena eu não podia ver velhinhos na rua que desatava a chorar. Me lembro mesmo de sentir uns nós na garganta quando vi um senhorzinho atravessando a rua num dia comum, por volta dos meus 5 anos. Nunca entendi isso, não há terapia que explique, mas criei uma teoria.
A Juju, minha bisa, tinha o dom de contar histórias longas e depois voltava para o ponto de onde tinha comecado, fazendo qualquer criança se sentir portador de Alzheimer. Eu combinei com ela de gravar as histórias da família pra que não se perdessem, mas não consegui, deixei pra outro dia.
E ela era lindinha, miúda, com olhinhos muito brilhantes e uma língua ácida. E ficava me olhando e sorrindo e dizia que eu era a menina mais linda do universo. Passava a mão no meu rosto e dizia que eu merecia ganhar o mundo. Aquilo era muito quentinho.
Aos 80 e poucos ela quebrou o quadril, encheram-na de pinos e acharam que não duraria muito, pois seria difícil voltar a andar. Ela voltou a andar normalmente. Aos 90 e poucos ela quebrou o outro lado do quadril e quase foi de novo. Voltou a andar normalmente.
Foi ficando mais debilitada, é verdade, mas a mesma velhinha sagaz. Começou a me contar os sonhos que tinha e algumas visões. Foi até passear na lua e voltou cheia de detalhes e lições de vida que recebeu do povo de lá.
Um dia ela teve uma pneumonia, que quase tratada, gerou um avc, que a fez se soltar da vida.
Ela falava sobre a morte como uma amiga de quem estava esperando a visita e dizia das belezas que tinha visto e encontrado durante a vida. Ela se emocionava quando dizia que ia sentir saudades e quando agradecia por existir.
A minha teoria é de que os deuses me proveram desde criança com certa sensibilidade aos idosos exatamente porque sabiam que eu estaria em uma família cheia deles. Seria um desperdício de vida por parte do departamento de criação do universo se eu não tivesse aproveitado a Juju, se eu não tivesse enxergado a importância de ouvi-la e de valorizá-la enquanto viva e lúcida. Foi o amor mais doce que tive e agradeço. 


Out/2009

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