terça-feira, 24 de maio de 2011

Proibido estacionar

Não pare na minha. Meu coração tem vaga, mas sou eu quem dirige.
Não quero arranhões. Nem pouco espaço. Quero sempre vagas amplas, de onde eu possa entrar e sair na maior facilidade. E a cada baliza quero uma festinha. Mas não me cobrem logo ali na cancela, não me venha com essa.
É só parar e despejar. Carga e descarga, manja?
Não sei dizer o que sinto, sou só ouvidos. Às vezes, não sei esclarecer as coisas nem comigo mesma. Mas sou boa de ombros. Chegue e acomode-se, me conte suas histórias, me deixe te ajudar. Eu vou cuidar de voce.
Só não se assuste quando tentar fazer o mesmo por mim. Eu resistirei bravamente. Querendo aceitar, eu direi que não precisa. E voce vai acreditar, sou convincente. E eu te amarei por isso.
Quando a dor apertar e eu precisar de voce, vou chorar baixinho no escuro. Vou colocar uma musica bem triste e lavar as mágoas. Depois as penduro e elas ficam macias e cheirosas. E quando eu te encontrar, vou abrir braços e sorrisos enormes.
Um dia, voce vai começar a perceber que eu tenho rachaduras e vai querer olhar mais de perto. E eu te mostrarei os caquinhos em doses homeopáticas. São muitos, voce nem imagina, é melhor ter cuidado.
Voce me dirá, então, que eles não são tão afiados assim e ainda podem ser colados. E eu vou ficar muito brava porque voce descobriu um segredo. Quando voce tentar me mostrar o caminho, vou calar. Quando voce me perguntar sobre meus medos, responderei que já faço terapia.
Vou me afastar e ficar quieta, esperando voce desistir. E voce vai achar que eu deixei de te amar, sem entender.
Desculpe, já de antemão. Eu continuo te amando tanto e mais até.
Eu só não sei ser olhada, apesar de ser meu desejo mais profundo.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Cabe, sim!

Dear John,

O Pacífico deve ter uma força sobrenatural. A energia atravessou mesmo o mundo e se instalou aqui, num espaço escondido entre o pulmão e a espinha, furtando sorrisos de mim.
Onze anos e suas contas malucas do que isso significa. Significa tudo o que a gente tentou dizer e não conseguiu, porque nem os protagonistas são capazes de direcionar os afetos no roteiro. E significa muito mais, eu sei...
Tenho a sensação que o passado é um pedaço de gente dentro da gente, de uma gente que já existiu mas que não morreu e que, de vez em quando, volta pra nos dizer que fizemos escolhas certas algum dia.
Eu escolhi voce me fitando uma noite no Saco de São Francisco e fui feliz demais. Acho que te fiz feliz também, porque em todas as minhas lembranças voce está ou sorrindo ou gargalhando. E tudo é silêncio, engraçado isso, um silêncio de quando o mundo está nem aí. Não me lembro da sua voz, quero dizer, lembro, mas muito distante. Lembro mesmo é da boca, há! E dos lugares fantásticos onde voce me levou, que só um apaixonado encontra. Os lugares, na verdade, são comuns, eu é que via beleza em tudo.
Como amor de férias, foi uma aventura mais que bem sucedida. Por que aqui estamos nós, boquiabertos com a a nossa capacidade de nos amar tão longamente afastados. Voce me pergunta se isso cabe, voce duvida que nada tenha mudado no meu modo de amar. John, claro que cabe e claro que muda, mas não muda, entende?
Estamos mais embrutecidos, é verdade, caímos de alguns precipíos desde então e já não acreditamos em tudo tão facilmente. Sinal que amadurecemos. Mas algo daquela pureza grudou nesse pedaço da gente e veio vindo junto. É que a gente se esqueceu de olhar de vez em quando, mas estava lá, guardado pra quando precisássemos mais fortemente.
Eu vinha mesmo pedindo pra lua cheia me trazer uma leveza nos sentimentos, que andam bastante carrancudos, sabe? Aí ela mandou voce, em mais uma manhã gelada em que eu me debatia com essa tristezinha besta. Eu precisava tanto me lembrar disso tudo. Eu devia ter lembrado sozinha, né, mas eu continuo fazendo as coisas de um jeito estranho. Eu me lembrei do quanto voce fazia eu me sentir a menina mais especial do mundo. Eu era uma menina que voce ensinou a ser mulher, eu não podia ter tido mais sorte. Virei um mulherão, voce precisava ver. Não no sentido estético, mas no emocional. Fiquei segura do que eu quero receber. Mas não se fazem mais homens como voce, viu. Lembrar de tudo e redescobrir esse amor maior que a gente, me fez saber que meu destino é viver daquele jeito, o resto é engano meu.
Eu fiquei triste de voce estar triste, apesar da euforia toda de reencontrar voce em mim. A carta é pra fazer voce se lembrar também e ver se te faz tanto bem quanto me fez.
Eu continuo te amando porque voce sempre foi o amigo que eu posso procurar em qualquer hora depois de anos, que eu vou ser recebida com festa. Porque voce deixou uma parte nobre de voce na minha história. Porque voce sempre se preocupou em não me magoar. Porque voce se lembra de tudo com muito mais detalhes que eu e porque eu sou mais inteira quando lembro da gente.
Fico devendo mesmo o abraço, que selaria a paz do nosso passado com um futuro de mais memórias.

Te amo, John, sempre e essa música é pra voce saber que cabe, tá!
http://www.youtube.com/watch?v=QW0i1U4u0KE&feature=player_embedded

Sinta-se afagado,
Lila

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Pedido à lua cheia

Generosidade da vida e cura das almas, da minha também. Amor leve, cheio de dengos e atento. Passado esticadinho a ferro a vapor, vivas lembranças de infância, cheiro de mãe e flores exóticas. Crianças na rua, a brincar. Conversa de amiga e música alegre. Sabedoria, filosofia, filme água-com-açúcar. Olhares de encanto. Vinho, cerveja, vodka, sem ressaca. Festa junina, fogueira, paçoca. Livros e sonhos bons. Mato, bolhas de sabão e papagaios. Vira-latas. As vitórias da vida sobre a morte e um pouco de morte pra me lembrar quem sou. E voce, sempre linda, alta e sábia nos seus ritmos, a me iluminar.
Obrigada, amém!

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Faz chuva

Um dia lindo de outono e uma chuva de brincadeira, parecia. E nós ríamos, de nada e de tudo. De estarmos juntos. Às vezes é tão difícil sermos juntos. Quando conseguimos, o riso fica infantil e delicioso.
E esse cheiro de vida molhada, lavando nossos descontentamentos, aguando os pequenos delírios. Aconchego de quem te ama, de quem conhece suas sombras desde sempre. E naqueles momentos tudo bem, a chuva te deixa usufruir dos perdões mútuos.
Quantas pessoas morrem sem poder rir das escolhas tortas, sem poder sorrir quando o peso das mágoas desvanece. Ser o que se é tem a dor e claridade de se permitir viver como gostaria, apesar das pedras (e perdas) para se conseguir isso.
Era um calor por dentro, que eu não queria dormir. Não queria que acabasse, queria só ficar ali, junto, rindo, sendo.
Agora vou comprar um casaco vermelho, decidi, que é pra ver se carrego esse dia sempre comigo.

quinta-feira, 12 de maio de 2011

Ai, se 'sesse'

Queria escrever pra voce, de voce, quase queria escrever em voce.
Só tenho coragem pra isso, sem descrever muito, sem deixar pistas, voce é esperto.
Eu fico ensaiando te contar uns segredos, sobre o espaço que voce ocupou, e desfaço a fantasia. Como aquela mulher, que tecia de dia e desfazia à noite.
Voce tece uma colcha com a gente, desde o princípio. Homens não tecem colchas, acreditava eu, mas veio voce e fez uma que é um espanto de bonita. Voce me emaranha nela, me enrola toda e fica rindo com esses olhos amadeirados. Eu sei que voce sabe e gosta que seja assim. Eu gosto também, um pouquinho, é quentinho. Mas serei eu a ficar com a colcha e as lembranças quando voce cansar de brincar.
Eu te mostrei uns retalhos, voce me mostrou seu coração descosturado. E briga comigo quando minhas costuras afrouxam. Voce odeia minhas fraquezas. Mas me cuida. E é de um jeito que não me acostumo. É um cuidado de amor. O problema é que eu não conheço todos os tipos de amor pra saber onde encaixar o seu.

Para Cris

Ontem ganhei
Flores
Borboletas 
Fundo azul
Ganhei amor desenhado
beijos delicados
na face
de pessoas distantes
Em forma de abraço
ganhei carinho de infância
do jeito que eu gosto
Se pudesse
te dava em dobro
e meu amor é tamanho
mas nada
do que eu ofereça
tem o mesmo sabor e a quentura
da ternura que voce me ensinou.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

insana flor do querer

Tivesse balões, eu escrevia bilhetes, cada parágrafo em um e ia soltando pelos ares para chegar em voce. Assim voce achava que era recado dos céus e guardava com o amor que eu queria pra mim.

terça-feira, 10 de maio de 2011

Raios e trovões

Fica guardado. Bem quieto. Junta, junta, junta. Faz furo na barriga até explodir. Aí é bom, alivia e abre espaço. Mas nisso já atropelou muita gente. É uma nuvem radioativa, me faz viver cheia de trincas, trancas e inflamações. O processo inflamatório é a dificuldade de dar fluidez. O corpo inflama quando sente uma agressão, mas é um processo indiscrimidado, inflama com qualquer cisquinho.
Mexeu comigo, espero. Mexeu com os meus, devoro. Devoro com o olho e não faço digestão.
Bata na minha cara, me cuspa e humilhe, eu não sinto. Transpire ousadia de maldade perto de um ente, parente, amigo, fo-deu. Eu tenho a ira dos deuses e choro o choro dos antepassados. Eu aguentaria tortura, acho, mas não um objeto de amor sendo injustiçado.
É personalidade e cara de pau. Todo mundo pode mudar, eu não quero. Não neste aspecto. Quero a ira contra os adversários dos meus. Quero o amor bonito que posso dar e receber. A leveza eu não posso querer, não me cabe. Devo ser filha de tigre com leoa, bisneta de foca com touro. O áries trava guerras, o câncer alimenta as mágoas e lambe as feridas. Eu tenho nós e os amarro sempre mais e mais forte. Não é bonito, nem gostoso. Mas é meu e é assim que eu aprendi a viver. Fale e eu me retiro. E quem vê pensa que eu sou essa braveza toda!

quinta-feira, 5 de maio de 2011

saidaqui

Essa necessidade de se esconder. Estou fugindo desde que nasci. Faz o quê com isso? Gente orgulhosa é feio, gente burra pior ainda.
Eu fazendo todo um discurso sobre não dar moral pras pessoas que se acham, vem uma amiga daquelas bem práticas e me ensina a lição que eu vivo tentando ensinar: "mas e seu coração? Voce pode achar o que quiser do outro, mas talvez seja bom dizer o que voce sente, só pra isso sair de voce e essa pessoa saber que é importante. É bom, depois a pessoa faz o que quiser com a vaidade dela, é dela mesmo!"
Vai cabaçona, vai se aprumar, vai ver se entende que a sua medida não tem que ser a vaidade de alguém, mas tem que ser suficiente pra não esbarrar na muralha da sua!