sexta-feira, 13 de agosto de 2010

colação de grau dez/2007

Gostaria de começar com uma pequena história presente no Livro dos Abraços de Eduardo Galeano. Chama-se A Função da Arte e diz assim:
“Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando. Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto o seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza e medo. E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: - Me ajuda a olhar!”
Bom, acho que ninguém aqui saiu ileso dos cinco anos de faculdade. Além de Psicólogos, muitos aqui se descobriram psicoterapeutas, ou, ao menos, perceberam seu potencial para sê-lo. Não saímos ilesos porque, como o menino da história, nos deparamos com o medo e a beleza da imensidão do nosso mar, do mar humano, do inconsciente. E descobrimos que precisamos de ajuda para nos aproximar daquilo que é mais profundo. E descobrimos também que podemos ser aqueles que ajudam os outros a olhar. Para isso, fomos aprendendo que não podemos chegar nem antes nem depois do outro, do paciente, mas temos de oferecer aquilo que ele precisa. E aprendemos que isto está em nós. Nós somos nossas ferramentas. Ferramentas meio capengas, meio tortas, mas que podem aliviar o sofrimento. Que tarefa difícil, tão delicada e afiada como a própria vida, mas, exatamente por isso que encanta e faz valer a pena. Ajudar alguém a olhar seu próprio mar é tão árduo que muitas vezes chega a doer. Mas foi o que nos tornamos: Olhadores de mares! E isto não poderia ter acontecido sem cada encontro que vivemos, sem as alegrias e angústias que compartilhamos. Acho que hoje somos pessoas melhores, principalmente porque vivemos tudo isso juntos. E como vivemos!
Encontramos pessoas completamente diferentes de nós e percebemos que precisamos das diferenças e passamos a gostar muito delas. Nós crescemos juntos e isso ninguém pode tirar. Diante de toda a ordem estabelecida, das regras sociais que fazem adoecer, nós descobrimos a contra-mão, pegamos o caminho da alma. E eu só posso desejar que a gente nunca perca o encantamento, o arrepio e o assombro que sentimos nas primeiras aventuras para conhecer o mar. E acredito que, como profissionais, dar essa chance a alguém é oferecer um pouco mais de vida e esperança ao mundo. Boa sorte pra nós todos!

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