Para escorregar basta ter vida. Para chegar naquele limiar da sanidade basta ser um pouco mais fraco que seus desejos. Fraca, sou eu. Covarde estou. Há dias em que acordam-me pedidos dos mais esdrúxulos. Umas vontades de gente maluca a me espreitar na hora do banho. Mas não cedo não. Ainda sou boa na arte de me despistar. Não se deve tentar esconder, esconder-se, conter amor. Amor foi feito pra ser como fumaça de churrasco, empesteando a roupa de quem estiver por perto, defumando as pessoas. Amor foi feito pra viver apesar de. É lírico o amor contido. Mas só é livre aquele que o distribui. Se alguém me nega o amor, me impede as admirações e os cafunés que eu daria, entrego-lhes todos inteiros e melhores para outros. Guardar é para os covardes. Não comprarei megafones, nem espalherei spams por aí anunciando meus sentimentos, mas entregarei a cada um o que lhe cabe. Se quiser levar, leva, é todo seu. Contanto que não fique aqui me pinicando, eu entrego amor por encomenda também.
Sobre aquele que não o quiser, não sabe nada sobre os amores. Amor tem de vários tipos, tem de vários aromas e sabores. Eu gosto dos cítricos. Mas temos também os aguados, aqueles que fluem melhor, sabor de água que mata sede. Acho que temos uma vocação: entregadores de amores.
Entrego aqui todos eles, sem culpa, sem pedaços, sem senãos. Entrego pra ser mais feliz, que peso de amor faz mal demais à saúde. Façamos assim: eu entrego calada e viro as costas (resta ainda um punhado de covardia) e voce usa como quiser. Não há pacto, só escolhas. O único empecilho são meus olhos, eles não aprenderam a mentir.
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